O cenário político em Brasília foi chacoalhado por uma reviravolta tática nesta quarta-feira (27). Em um movimento que pegou a base governista de surpresa, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), anunciou que o partido votará a favor do fim da escala 6×1. Mais do que isso, a bancada da oposição vai apresentar um destaque para defender uma mudança ainda mais drástica na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): a jornada de quatro dias trabalhados por três de descanso (4×3).
A declaração ocorreu às vésperas da votação do parecer do relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), na comissão especial que analisa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC). O parecer original de Prates sugere uma transição mais suave, reduzindo a jornada semanal das atuais 44 horas para 40 horas, após 14 meses da aprovação da emenda.
A Estratégia de “Dobrar a Aposta”
O discurso de Sóstenes Cavalcante na tribuna da Câmara deixou claro o caráter de desafio político da medida. Ao inflar a proposta para a escala 4×3, o PL tenta transferir a pressão do custo econômico da medida para os partidos de esquerda e para o governo federal.
“Já que querem ajudar o trabalhador, eu quero ver amanhã os petistas botando a sua digital. Nós vamos votar o fim da escala 6×1 para aprovar como destaque, de preferência, a jornada de quatro dias trabalhados para o trabalhador descansar três”, disparou o líder do PL.
Essa tática de “dobrar a aposta” visa constranger o governo, que precisa equilibrar o discurso de apoio aos direitos trabalhistas com o impacto fiscal e a resistência do setor produtivo e do empresariado — uma base que a oposição disputa de olho nas eleições.
Erika Hilton acusa o PL de “Manobra”
A reação da autoria do projeto foi imediata. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), principal articuladora e autora da PEC original do fim da 6×1, classificou a mudança de postura do PL como uma tentativa oportunista de “limpar a barra” com a opinião pública, dado o forte apelo popular do tema nas redes sociais.
Para a parlamentar, a exigência da jornada 4×3 por parte da oposição é uma estratégia para implodir o consenso e atrasar o andamento do texto. “É mais uma manobra do partido que foi o tempo todo contrário à matéria e trabalhou para não avançar o texto”, declarou a deputada, questionando se o PL sustentará o voto favorável caso a matéria chegue ao plenário principal.
O “Rito de Urgência” nos Bastidores
Para viabilizar a votação na comissão especial nesta quarta-feira, a mesa diretora da Câmara precisou recorrer a manobras regimentais. Na manhã de hoje, foi realizada uma sessão relâmpago de apenas oito minutos presidida pelo deputado Charles Fernandes (PSD-BA). O rito, puramente formal e sem votações nominais, serviu apenas para cumprir a exigência de prazos regimentais de plenário que haviam sido travados após um pedido de vista do deputado Mauricio Marcon (PL-RS) na segunda-feira (25).
A expectativa dos líderes partidários é que, uma vez votado e aprovado o parecer de Leo Prates na comissão especial, o texto ganhe regime de urgência para ser apreciado pelo plenário da Câmara dos Deputados ainda no mesmo dia.
O que muda para o Mercado?
Caso o destaque do PL prospere e a jornada 4×3 ganhe tração, o impacto no setor de serviços, comércio e microempresas será profundo. Se a redução para 40 horas semanais já acendia o alerta de sindicatos patronais pelo risco de aumento nos custos de contratação e necessidade de turnos adicionais, o modelo de quatro dias úteis exigirá uma reorganização completa da escala de produtividade nacional.
A votação desta quarta-feira definirá se o fim da escala 6×1 seguirá como uma reforma de transição econômica gradual ou se o parlamento entrará em uma guerra de narrativas políticas onde o trabalhador e o empresário aguardam o resultado final para saber o tamanho do passo que o país dará.
Fonte principal: CNN Brasil. Líder do PL diz que partido votará fim da 6×1 e pedirá escala 4×3. Publicado em 27/05/2026.
