Por que o mercado financeiro se assustou com as propostas de André Lara Resende?

Por que o mercado financeiro se assustou com as propostas de André Lara Resende?

 

Existe uma tradição curiosa na economia brasileira: a cada certo número de anos, alguém aparece com uma ideia para resolver um problema estrutural do país sem precisar enfrentar a parte desagradável da solução. É uma espécie de dieta milagrosa das contas públicas. Você continua comendo exatamente o que comia antes, não precisa fazer exercícios e, de alguma maneira, perde vinte quilos até o Natal.

O economista André Lara Resende não é exatamente um vendedor de dietas milagrosas. Muito pelo contrário. É um dos intelectuais mais importantes da história econômica recente do Brasil, participou da formulação do Plano Real e tem credenciais suficientes para ser ouvido até quando propõe algo que faz os operadores do mercado financeiro procurarem o telefone do cardiologista.

E foi justamente isso que aconteceu.

A possibilidade de Lara Resende influenciar os rumos da política econômica do governo Lula reacendeu uma discussão que parecia resolvida desde que o Brasil conseguiu controlar a hiperinflação: até que ponto um governo pode determinar o preço do dinheiro sem comprometer a confiança na própria moeda?

A pergunta é boa. A resposta, infelizmente, não cabe em um vídeo de trinta segundos nem em uma briga entre economistas no X.

O problema dos juros brasileiros é real. A solução é que assusta.

Vamos começar reconhecendo o óbvio: o Brasil convive com juros extraordinariamente elevados há décadas.

Juros altos encarecem empréstimos, dificultam investimentos produtivos, pressionam as contas públicas e transformam o financiamento de um pequeno negócio em uma modalidade de esporte radical.

Para um trabalhador autônomo, a situação é especialmente cruel. O dinheiro necessário para comprar equipamentos, ampliar o negócio ou atravessar três meses de faturamento ruim frequentemente chega acompanhado de taxas que parecem calculadas por alguém com ressentimentos pessoais.

Lara Resende parte de uma preocupação legítima: o custo dos juros também contribui para o crescimento da dívida pública.

Sua proposta, conforme apresentada pela CNN Brasil em 2 de novembro, prevê reduzir a Selic de 13,75% para 7,5% em aproximadamente um ano. Posteriormente, os juros seriam mantidos em uma faixa entre 3,5% e 5,5%.

É uma redução expressiva.

E aqui aparece o primeiro problema: juros não são apenas uma despesa do governo. São também um instrumento para controlar a inflação e influenciar as decisões de consumo, investimento e poupança.

Quando a inflação ameaça escapar do controle, o Banco Central pode elevar os juros para reduzir a demanda e tentar estabilizar os preços.

Podemos discutir se a autoridade monetária exagera na dose, se seus modelos são adequados e se o remédio provoca efeitos colaterais desnecessários. São debates legítimos.

O que não podemos fazer é presumir que o termômetro provoca a febre e que, portanto, basta quebrá-lo.

O Banco Central não deveria funcionar como um departamento do governo

Outro ponto controverso é a proposta de criar um conselho fiscal e monetário para definir metas relacionadas à atuação do Banco Central.

É importante fazer uma distinção: o Brasil já possui o Conselho Monetário Nacional, responsável por estabelecer a meta de inflação. O Banco Central, por sua vez, possui autonomia operacional para perseguir essa meta.

Portanto, a existência de um conselho não é, por si só, uma novidade revolucionária.

A preocupação está em como seriam distribuídos os poderes e, principalmente, se o Banco Central continuaria livre para ajustar os juros quando considerasse necessário.

Imagine um médico responsável por tratar um paciente hipertenso. Ele identifica a necessidade de determinado medicamento, mas descobre que a dosagem será definida por um comitê interessado em garantir que o paciente esteja feliz antes da próxima eleição.

Pode funcionar? Talvez.

Mas seria prudente perguntar se o comitê está preocupado com a pressão arterial ou com os índices de popularidade do hospital.

É justamente essa a razão da autonomia do Banco Central: reduzir a influência dos interesses políticos de curto prazo sobre decisões monetárias cujos efeitos aparecem ao longo de meses ou anos.

Isso não significa que seus dirigentes sejam infalíveis. Tampouco que a política monetária deva ficar imune ao debate democrático.

Significa apenas reconhecer que o calendário eleitoral e o ciclo da inflação não obedecem ao mesmo relógio.

O fantasma da Turquia voltou a frequentar Brasília

Sempre que alguém propõe reduzir os juros de maneira agressiva, surge a comparação com a Turquia.

E não é por acaso.

Durante o governo de Recep Tayyip Erdoğan, o país adotou uma política de cortes de juros apesar da inflação elevada. A experiência contribuiu para deteriorar a credibilidade monetária, pressionar a moeda turca e agravar a escalada dos preços.

A inflação anual chegou a superar 85% em 2022.

O resultado foi uma demonstração bastante didática de que a realidade econômica não costuma respeitar convicções presidenciais.

Mas é preciso ter cuidado com analogias.

O Brasil não é a Turquia. Nossas instituições, a estrutura da dívida pública, as reservas internacionais e as condições econômicas são diferentes.

Também seria intelectualmente desonesto afirmar que qualquer redução de juros produzirá hiperinflação.

O problema não é reduzir a Selic. O problema é reduzi-la sem que as condições econômicas sustentem essa decisão, especialmente se houver dúvidas sobre a capacidade do Banco Central de reagir a uma aceleração dos preços.

O mercado não está necessariamente preocupado com juros menores. Está preocupado com a possibilidade de juros artificialmente baixos.

São coisas muito diferentes.

E se o dólar disparar? Temos US$ 360 bilhões para resolver

Outro elemento da proposta envolve a utilização das reservas internacionais para conter pressões sobre o câmbio.

Segundo a reportagem da CNN, o Brasil possui aproximadamente US$ 360 bilhões em reservas.

É muito dinheiro.

Tanto dinheiro que um político brasileiro provavelmente conseguiria anunciar sua utilização em pelo menos quarenta programas diferentes antes de explicar de onde ele veio.

Mas reservas internacionais não são um cofrinho disponível para financiar qualquer aventura econômica.

Elas funcionam como uma proteção contra crises externas, interrupções de financiamento e movimentos extremos do mercado cambial.

O Banco Central pode utilizar reservas para oferecer liquidez em dólares e reduzir disfuncionalidades no mercado. Isso não é necessariamente errado. Intervenções cambiais fazem parte do instrumental de diversas autoridades monetárias.

O risco aparece quando o governo tenta sustentar uma cotação incompatível com os fundamentos econômicos.

Se os investidores acreditarem que o dólar deveria valer mais, e que o governo está gastando reservas para impedir esse movimento, poderão interpretar a intervenção como uma oportunidade para comprar dólares antes de uma desvalorização maior.

É o equivalente financeiro a tentar esvaziar o oceano com um balde enquanto alguém anuncia que o balde está ficando vazio.

Não significa que as reservas brasileiras desapareceriam automaticamente em poucos dias. Essa previsão depende da intensidade das saídas de capital, da política adotada e das condições de mercado.

Significa que reservas internacionais compram tempo, mas não substituem credibilidade econômica.

A conta dos juros é gigantesca. Mas a matemática não aceita desaforo.

Lara Resende argumenta que a redução dos juros poderia produzir uma economia fiscal expressiva, estimada em até 4% do PIB ao ano, segundo a reportagem.

A tese merece discussão porque os juros da dívida pública representam, de fato, uma parcela importante das despesas financeiras brasileiras.

Mas existe uma diferença entre calcular quanto o governo economizaria se os juros caíssem e demonstrar que eles podem cair de maneira sustentável.

A primeira tarefa exige uma planilha.

A segunda exige confiança, inflação controlada, condições fiscais consistentes e disposição dos investidores para financiar a dívida pública.

Se os juros forem reduzidos artificialmente e o mercado passar a exigir remuneração maior para comprar títulos de longo prazo, parte da economia esperada poderá desaparecer.

Se o dólar subir e pressionar a inflação, o problema pode ficar ainda mais complicado.

E existe outra questão que não pode ser ignorada: a dívida pública não cresce apenas por causa dos juros.

Ela também depende da relação entre receitas e despesas primárias, do crescimento econômico e das condições de financiamento do governo.

Reduzir o custo da dívida é desejável.

Mas não elimina a necessidade de discutir a trajetória dos gastos públicos.

É como uma família endividada conseguir renegociar o cartão de crédito. Excelente notícia. Mas, se continuar gastando sistematicamente mais do que ganha, o problema não foi resolvido. Apenas ganhou uma prestação mais simpática.

O Brasil quer juros de país desenvolvido sem resolver seus problemas de país emergente

Aqui chegamos ao ponto mais incômodo da discussão.

O Brasil precisa de juros menores. Isso deveria ser um objetivo compartilhado por empresários, trabalhadores, governo e investidores.

Mas juros baixos e sustentáveis não surgem simplesmente porque alguém decidiu que seriam mais agradáveis.

Eles dependem de expectativas de inflação ancoradas, previsibilidade institucional, estabilidade fiscal, produtividade e confiança na moeda.

A ironia brasileira é que frequentemente tentamos obter os resultados de economias estáveis sem aceitar o trabalho necessário para construir essa estabilidade.

Queremos crédito barato, mas convivemos com insegurança jurídica.

Queremos investimento de longo prazo, mas mudamos regras tributárias com frequência.

Queremos uma dívida pública sustentável, mas transformamos qualquer discussão sobre despesas obrigatórias em uma guerra ideológica.

E queremos inflação baixa sem aceitar que controlar a inflação pode exigir decisões impopulares.

Não é um problema exclusivo da esquerda ou da direita.

Governos de diferentes orientações políticas já demonstraram enorme criatividade para encontrar justificativas sofisticadas para escolhas fiscalmente convenientes.

A irresponsabilidade econômica brasileira é uma instituição suprapartidária.

E o que tudo isso significa para quem trabalha por conta própria?

Para os milhões de brasileiros que dependem do próprio trabalho para pagar as contas, a discussão parece distante.

Não é.

Uma redução sustentável da Selic pode contribuir para diminuir o custo do crédito, estimular investimentos e melhorar as condições de financiamento de pequenos negócios.

Mas a Selic não é a taxa cobrada diretamente no empréstimo do autônomo. Entre uma coisa e outra existem risco de crédito, inadimplência, custos bancários, impostos e margens financeiras.

Por isso, mesmo uma queda expressiva da taxa básica não garante crédito barato imediatamente.

Já uma redução mal conduzida pode produzir efeitos bastante concretos.

O dólar mais caro encarece produtos importados, equipamentos, componentes eletrônicos e insumos. A inflação corrói o poder de compra dos clientes. E a instabilidade dificulta o planejamento de quem não possui salário fixo para amortecer os imprevistos.

O autônomo costuma ser um dos primeiros a sentir a desaceleração da demanda e um dos últimos a receber algum tipo de proteção.

Para ele, estabilidade monetária não é uma abstração acadêmica.

É a diferença entre conseguir formar uma reserva financeira e descobrir que o dinheiro guardado perdeu poder de compra antes mesmo de ser utilizado.

O mercado financeiro está certo ou apenas defendendo seus próprios interesses?

Existe uma tentação bastante brasileira de transformar qualquer debate econômico em uma disputa moral.

De um lado, o mercado financeiro, apresentado como uma entidade gananciosa que deseja juros elevados eternamente.

Do outro, os defensores de uma política monetária expansionista, retratados como irresponsáveis interessados em imprimir dinheiro até acabar o papel.

A realidade é menos cinematográfica.

O mercado financeiro possui interesses próprios, naturalmente. Bancos, gestores, investidores e empresas não formam um grupo homogêneo e podem ganhar ou perder dinheiro em diferentes cenários de juros.

Também é verdade que o consenso econômico pode errar. A história está cheia de previsões equivocadas feitas por especialistas perfeitamente credenciados.

Questionar a política monetária brasileira é legítimo. Lara Resende tem formação e trajetória para fazê-lo.

Mas uma proposta heterodoxa precisa responder a perguntas concretas: como preservar a estabilidade dos preços? Como impedir a desancoragem das expectativas? O que acontece se a inflação subir? Qual será a resposta do Banco Central? E como sustentar a confiança na dívida pública?

Não basta afirmar que o modelo atual possui problemas.

É necessário demonstrar que o modelo alternativo não criará problemas maiores.

A autoridade intelectual de quem apresenta uma proposta não dispensa a proposta de passar pelo teste da realidade.

Afinal, por que o mercado se assustou com Lara Resende?

A resposta é menos complicada do que parece.

O mercado teme que a política econômica brasileira passe a priorizar a redução imediata dos juros sem oferecer garantias suficientes de controle da inflação, sustentabilidade fiscal e autonomia operacional do Banco Central.

O receio aumenta quando essas propostas ganham espaço no debate político em um momento de preocupação com a trajetória da dívida pública.

Isso não significa que as medidas serão adotadas, nem que seus efeitos negativos estejam determinados.

Significa que os investidores passaram a considerar um cenário de maior incerteza.

E incerteza, no mercado financeiro, tem preço.

Esse preço pode aparecer no dólar, nas taxas dos títulos públicos, na bolsa e, eventualmente, no custo do crédito para empresas e famílias.

Perguntas frequentes sobre as propostas de Lara Resende

O que André Lara Resende propôs para a economia brasileira?

Segundo a CNN Brasil, suas propostas incluem reduzir a Selic para 7,5% em aproximadamente um ano, estabelecer posteriormente uma faixa de juros entre 3,5% e 5,5%, modificar a governança das metas monetárias e utilizar reservas internacionais para enfrentar pressões cambiais.

Por que o mercado financeiro reagiu com preocupação?

Porque há dúvidas sobre a viabilidade de reduzir os juros de maneira tão intensa sem provocar inflação, desvalorização cambial ou perda de credibilidade da política monetária.

Lara Resende quer acabar com a autonomia do Banco Central?

A proposta de alterar a governança monetária levanta preocupações sobre a autonomia operacional da instituição. Entretanto, seria necessário examinar o desenho institucional completo para determinar quais poderes seriam efetivamente modificados.

Reduzir a Selic para 7,5% seria ruim para o Brasil?

Não necessariamente. Juros menores podem beneficiar a economia. O risco depende das condições fiscais, das expectativas de inflação, da velocidade da redução e da capacidade do Banco Central de reagir caso os preços acelerem.

O plano econômico de Lara Resende já foi aprovado?

Não. As medidas estão no campo das propostas e do debate político. Sua implementação dependeria de decisões governamentais e, conforme o desenho adotado, de mudanças legais ou institucionais.

Conclusão: o Brasil não precisa de um milagre econômico. Precisa parar de procurar um.

Talvez o aspecto mais interessante dessa discussão seja a contradição histórica.

André Lara Resende ajudou a construir o Plano Real, um dos projetos econômicos mais importantes da história brasileira, justamente porque o país precisava recuperar a confiança em sua moeda.

Agora, décadas depois, suas propostas provocam receio de que mudanças na política monetária possam colocar parte dessa confiança em risco.

Isso não torna Lara Resende um vilão, nem significa que suas ideias devam ser descartadas sem discussão.

Economistas precisam questionar consensos. O pensamento econômico não pode se transformar em religião, com seus dogmas, sacerdotes e pecadores.

Mas também não podemos esquecer que o Brasil possui uma experiência histórica bastante extensa com soluções monetárias heterodoxas.

Já congelamos preços. Já trocamos moedas. Já cortamos zeros. Já confiscamos poupança. Já anunciamos planos econômicos com a solenidade de quem acabara de descobrir a cura para todas as doenças.

E, depois de cada experiência malsucedida, descobrimos que a economia continuava sujeita às mesmas restrições de antes.

O Brasil precisa encontrar maneiras de reduzir seus juros estruturalmente, melhorar a produtividade e controlar o crescimento da dívida pública.

Precisa discutir a qualidade do gasto, a eficiência da tributação e o custo do crédito.

Precisa, sobretudo, abandonar a ideia de que estabilidade econômica é um luxo reservado aos investidores.

Porque, quando uma experiência monetária dá errado, o gestor financeiro pode reposicionar sua carteira, comprar proteção cambial e transferir recursos para outros mercados.

O trabalhador autônomo, por sua vez, não possui um departamento de análise macroeconômica.

Possui boletos.

E boletos, ao contrário das teorias econômicas, costumam vencer na data prevista.

Base jornalística: CNN Brasil, reportagem de 2 de novembro de 2026, “Análise: Veja os possíveis efeitos da proposta econômica de Lara Resende”. Os parâmetros numéricos das propostas foram extraídos do material fornecido. A interpretação econômica e as opiniões são editoriais. A reportagem não equivale à íntegra de um plano oficial, e os cenários discutidos não são previsões de resultados.